sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

SP: Mural - Janeiro de 2011


NÚMERO 15 - JANEIRO DE 2011
O Mural é uma agenda cultural postada todo início de mês,
porém, editada ao longo do mês conforme os eventos surgem.
A agenda das bibliotecas é renovada semanalmente.
Amigo associado de qualquer cidade do Estado de São Paulo, contribua... 
aguardamos notícias dos eventos do interior. 

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RODA DE LEITURA
ELÉIA LEU

Em edições quinzenais, os poetas Berimba de Jesus, Caco Pontes, Gabriel Kerhart, Gabriel Kolyniak, Pedro Tostes e Valter Vitor coordenam uma roda de leitura, oferecendo um cardápio de poemas, organizado em torno de temas que propiciam a interlocução entre diversas linguagens, escolas e modos de fazer e pensar poesia.
3as feiras, das 19h30 às 21h30

CURSO

Iniciação à Redação do Texto Poético
Com Gilson Rampazzo
O curso propõe o exercício de redação de poemas e possibilita, para isso, o domínio de algumas técnicas básicas da poesia. É um curso eminentemente prático e não há a intenção de formar escritores, ao contrário, pretende-se desmistificar a excepcionalidade da produção poética: o poema é um texto que se aprende como qualquer outro.
Inscrições a partir de 1º de outubro, pessoalmente ou pelo telefone 3082-5023
5as feiras às 19h30

Vamos Ler?!!!
Coordenação: Ângela Figueredo e Márcia Marur
Programa que divulga a importância e a prática da leitura junto à crianças e jovens.
2as feiras das 9h às 10h e das 14h às 15h

local: BIBLIOTECA ALCEU AMOROSO LIMA
Rua Henrique Schaumann, 777
Pinheiros 05413-021 São Paulo, SP
Tel. 11 3082-5023
Horário: 2ª a 6ª feira das 8h às 17h e sábado das 9h às 16h
Núcleo de Poesia: 2ª a 6ª feira das 8h às 19h e sábado das 9h às 16h
Coordenadora: Ana Teresa M. Toledo
bmalceualima@yahoo.com.br
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AGENDA DA LIVRARIA CULTURA

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Gostaria de divulgar algo?
mande um e-mail para contato@danilomarques.com.br

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

SP: Quintas (41)

ALADOS  ESCRITORES NO ESPÍRITO DA ÉPOCA

A ampliação do conceito de escritor é uma novidade contemporânea, e certamente afilhada da tecnologia.
Houve um tempo em que a ideia de ser escritor estava vinculada ao sujeito que fazia livros. Escritor era aquele que publicava, editava, lançava um livro. "Eu sou escritor, então tenho que lançar livros, produzir livros, escrever livros!"...
Alguns ainda pensam assim:  o escritor deve é lançar livros, escrever livros, cada vez mais. Sim, isso também, mas o conceito foi alargado, a semântica se expandiu.
Hoje o escritor é bem mais. De certa forma, sempre foi, porém todos os afazeres ficaram de certa forma ocultos. Escritores e poetisas foram jornalistas, escreveram crônicas em jornais e fortaleceram com o viés da literatura o matutino espírito do leitor. Além disso, como cidadão, todos os escritores tiveram vidas próprias, e foram políticos, uns mais, outros menos. Alguns até abraçaram a carreira política, no futuro vieram a se arrepender. Jorge Amado bem disse que a sua mais fraca fase de produção literária foi quando esteve envolvido com partido político, mas isso é outra história.
Ocorre que com o advento da tecnologia e a informática inaugurando uma nova era, que está gradualmente substituindo a era humanista, a enterrando de vez, o conceito de escritor expande-se de forma formidável.
O escritor que acreditar que a sua função, ou missão, será unicamente a de fazer livro, estará ultrapassado pela expressão da voz dos tempos.
Não que o livro deixará de ser importante, isso não. O livro continuará tendo a sua importância, seja para enfeitar algum móvel, seja para transformar uma pessoa. O que acontece é que o escritor hoje lida com as múltiplas linguagens da arte e da palavra. Ele tornou-se um ser de atuação, terrivelmente envolvido com o seu tempo e o seu dizer. Além de escrever, fazer livros, terá o seu blog, o seu site, promoverá a poesia e a arte, a palavra e os sonhos. Divulgará a literatura do seu contemporâneo, a literatura que quer-ser-lida, de seus iguais.  E assim, fará, pois já está sendo transformado numa múltipla oficina sem retorno.
Assim como desmoronou e não cabe mais uma torre de marfim, é possível dizer que escritor é o sujeito que milita na palavra, na escrita, que expõe o seu pensamento e o seu sonho literário em colunas, de jornais, de revistas, em sites e blogs...
Escritor é também um crítico literário, um divulgador da cultura. E o escritor que tiver o seu espaço na internet, por exemplo, para divulgar apenas a sua obra, para falar apenas de si, certamente terá fama passageira, o seu nome será efêmero. Viverá na ilusão de que o espírito da época ainda anseia pelo "Escritor", ou seja, aquele que é só ele. A transformação que alguns já se deram conta é que só sobreviverá aquele que cedeu à própria condição de ser alado, e voa sobre as cidades espalhando a sua verdade: a literatura tornou-se algo além de si, universalizou-se de vez, anuncia o novo tempo, onde o ídolo não cabe, o escritor só-para-si já se foi. Em seu lugar um novo se multiplica em doces teceres. Sem se perder.

MARCIANO VASQUES

domingo, 2 de janeiro de 2011

SP: Quintas (41)

OS QUE NUNCA SUBIRAM A SERRA


No roseiral da manhã vagava a rosa em minha mente quando o avô Pedro vagarosamente caminhava pelas ruas de Ouro Fino.
A visão de seus passos com as folhas caindo e atapetando as pedras foi uma das primeiras dádivas que os meus olhos receberam.
Na calma da rua os gansos partilhavam conosco o caminho.
Anos mais tarde, ao observar a lentidão das azaléias em seu crescimento recordei-me da sua silhueta num ocaso de formidáveis nódoas se desprendendo das folhagens que beiravam a rua. Tive a impressão de rever o cavalo abanando a cauda e o capim orvalhado estendido pelo campo onde ele a cismar contemplava as raízes da sua história.
Meu avô era um sábio. A sua conversa mascada de um requinte que enfeitava-me a aula por tanta simplicidade.
Tempos depois o reencontrei em Suzano. Quis perguntar sobre as conversas antigas com o meu pai. Ele deu-me uma alta gargalhada, ofereceu-a generosamente. Ofertou o seu riso largo para o ar de Suzano. Falou-me que um dia seria um pássaro.
Foi a última vez em que o vi.
Mês depois recebemos a carta que falava do vôo do nosso querido Pedro.
A avó ofereceu-me um dia uma fatia de pão com um excesso de manteiga que encheu meu coração de alegria. Jamais esqueci da sua mão trêmula, repleta de fibras, nervos e manchas, a me ofertar o pão. Traduzi aquele gesto como uma das formas que o amor encontra para se manifestar.
Quando ela ficou viúva fugiu para um sitio. O seu marido foi morto pela polícia do governo e foram atrás dela, que era acusada de comunista.
Quando a policia apareceu no sitio procurando por uma viúva encontraram-na com o avô Pedro que a apresentou como sua companheira. Eles foram deixados em paz. Os homens procuravam uma mulher sozinha.
Eles sempre viveram entre Santos, Ribeirão Pires, Ouro fino e Suzano. Jamais conseguiram subir a serra por completo. Lembro-me de ouvir dizer que eles moravam em Suzano e voltavam pra Santos, depois moravam em Cubatão e iam para Ribeirão Pires, depois estavam novamente em Santos. Comecei a compreender que na verdade eles nunca subiram a serra para valer.
Às vezes me punha a imaginar como seria o meu avô vivendo numa cidade com edifícios altos, trânsito veloz e barulhento, gente correndo nas calçadas, ar difícil de respirar. Todos iriam pedir para ele sair da frente e ele iria tossir sem parar.
Na porteira do Brás, na Praça Clóvis, no Parque Dom Pedro, na Avenida São João. Bem que eu quis algumas vezes que ele estivesse comigo, para entrarmos num cinema, para um churrasco grego, uma crush, para eu lhe apresentar a cidade. Porém sempre me lembrava de que ele era feito das folhas das matas que beiravam as suas andanças e da neblina das suas manhãs.
Quis também muitas vezes que a minha avó pudesse estar comigo diante de uma vitrine, entrando numa loja, experimentando um vestido novo. Até quis que ela se sentasse comigo nas escadarias do Teatro Municipal! E quando chegou o Metrô, se ela ainda estivesse viva eu a teria buscado para andar por baixo da cidade.


MARCIANO VASQUES

domingo, 26 de dezembro de 2010

SP: O autor e sua obra - José Lanzellotti

José Lanzellotti

por Gilberto Marchi

José Lanzellotti, nascido em 21 de Julho de 1926 em São Paulo e falecido em 1992. Um ilustrador que poucos conhecem, mas que tem grande importância dentro da história da ilustração brasileira.
Dedicou-se à pesquisa e documentou com fidelidade o folclore brasileiro, os objetos, indumentária e os costumes da cultura indígena.

Atuou em diversas áreas, como: quadrinhos, cenografia e editorial. Lecionou desenho na escola Panamericana de Arte na década de 70, e foi aí que eu o conheci e colaborei na coleção Brasil, publicada pela Editora Três. Os trabalhos de Lanzellotti postados abaixo, fazem parte dessa coleção.



sábado, 25 de dezembro de 2010

SP: Quintas (40)

FELIZ TRANSLAÇÃO

Que o mundo e o universo são feitos de maravilhas não há dúvidas, mas assim como não há dúvidas por ter o tempo de duvidar já passado, parece que também não há perplexidades. Talvez elas estejam engatilhadas para os efeitos especiais do cinema, por exemplo, o mais notável entre os criados pela inteligência e "sensibilidade técnica" do homem, se posso assim dizer.
Tudo ou quase tudo que era e foi novidade mereceu de cada ser um instante que fosse de perplexidades, de encanto, e de espanto. Hoje isso não cabe na alma, diria. Então, voltar os olhos para o universo com suas maravilhas é perda de tempo, num mais afoito e generalizado arrisco. Mas tudo está aí e lá, como sempre esteve. E uma delas merece um pouco de atenção, pelo menos aqui. A translação.
Se pudéssemos cada um fazer uma retirada do cotidiano, uma suspensão dos nossos estares e fazeres, como se atendêssemos ao badalo do alto de uma torre ou ao audacioso convite de um vendaval, se pudéssemos estar suspenso além e fora do conteúdo vulgar e rasteiro de vidas sem autenticidade ou envolvidas com cartões e excesso de "Não", a tal ponto de supor, como deveríamos, que coisas tão preciosas como o próprio tempo ainda haverão de ser parceladas no crédito, se pudéssemos nos ausentar por instantes que sejam das mentiras oficiais, poderíamos então nos encantar de forma autêntica com uma das maravilhas que nos rodeiam e estão a nos piscar, e atenderíamos ao seu chamamento.
A translação, já pronunciada um pouco acima. Todos no cotidiano, uns, claro, envolvidos com lutas imensas e sonhares intensos, e outros desperdiçando o tempo e seus tesouros... Muitos emaranhados em suas próprias intrigas e desperdiçando gargalhadas e o riso autêntico com deboches e piadas vulgares.
Alguns, a maioria eu diria, menosprezando a grandeza interior e escorrendo num labirinto insensato que carrega ladeira abaixo o melhor do melhor de cada ser.
Mas a translação está aí, diante de nós, em nós. O planeta, o mundo girando ao redor do astro-rei, e completando a sua translação num dia convencional, o dia 31 de Dezembro, quando novo ano surge, e o ciclo se renova.
O que é um novo ano? Alguns dizem: é apenas a mudança de calendários. Não é. É bem mais do que isso. É o fechamento de um ciclo, de uma translação, e o início de outra, e assim como a vida há de se renovar, pois teremos as estações novamente a nos guiar, também em nós ela estará a se renovar, e isso não pode nem deveria jamais ser menosprezada. Estamos vivos. E teremos em nossos corações, em nosso ser, a oportunidade única e rara de uma nova translação.
E como somos seres dotados de inteligência, capacidade de razão humanista e de sentimentos, deveremos sim acreditar e apostar que um novo outono virá com todo o seu esplendor e suas flores, as flores de outono que são únicas; que o manto do Natal irá sim descer sobre a Terra e instalar no coração do homem a Poesia e a sua extraordinária força.
Deveremos sim naturalmente viver a nova translação, com força, com coragem, com audácia e com riso, mas não um raso riso, porém uma risada que há de se espalhar como roseiral sincero pelos deselegantes concretos da cidade e cismar e fuçar nos corações agrestes e rústicos, secos e vazios, descrentes e apáticos.
Um novo ano aporta nos portos de cada vida. E no vento flui, veleja o afago sincero, a sussurrar confiante: "Feliz nova translação!". Devemos apurar os ouvidos da alma, e ativar o olhar do encanto.
Estaremos a clamar por conversas com versos e sorriso de criança guiando as nossas esperanças. Sim, florescerá em nós a translação autêntica organizada pelos girassóis da sinceridade e dos mais genuínos quereres.

MARCIANO VASQUES


2 comentários:

rafael25 de dezembro de 2010 03:20
Marciano meu amigo que que texto maravilhoso para abrir um novo ciclo que se inicia uma nova translação um novo começo! Parabens um Feliz Natal e um 2011 Dez!

VELOSO25 de dezembro de 2010 03:24
Desculpe nossa falha o comentário saiu com o nome do meu filho! Fica com Deus e obrigado pelo carinho em 2011 vamos caminhar juntos de novo!

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

DF: Feliz Natal!

SP: Página do Ilustrador - Maurício Veneza



Nesta edição temos a honra de apresentar o trabalho do ilustrador Maurício Veneza. 

O conde de Monte Cristo - texto de Alexandre Dumas, adaptação de Luiz Antonio Aguiar - Editora Melhoramentos

"Nasci num dia de primavera, cento e um anos depois de Robert Louis Stevenson. Deu-se o importantíssimo evento (para mim) na mui formosa cidade de Niterói, que já foi capital do Rio de Janeiro e hoje é mais conhecida por ter um museu parecido com um disco-voador.

Com o pé na estrada - texto de Maurício Veneza - Editora Lê

Desenho desde criança, o que não é vantagem, já que todo mundo desenha quando é criança. Minhas imagens apareceram em histórias em quadrinhos, jornais, revistas, anúncios, cartazes, quadros-negros de escola, guardanapos de bar e mais de setenta livros infantis e juvenis. Escrevi roteiros para quadrinhos, recados para porta de geladeira, contos que não mostro para ninguém e cerca de trinta livros. Atualmente ocupo a vice-presidência da AEI-LIJ.


Contos africanos para crianças brasileiras - texto de Rogério Andrade Barbosa - Paulinas Editorial 

Depois de quase cem livros ilustrados e cerca de quarenta escritos, adquiri uma visão um tanto particular a respeito da ilustração de obra literária. 

Nina África - contos de uma África menina para ninar gente de todas as idades - texto de Lenice Gomes, Clayson Gomes e Arlene Holanda - Editora Elementar

Entendo, ao contrário da maioria, que a ilustração não é a imagem em si, mas a função que esta imagem exerce na sua relação com um determinado texto que a precedeu. 


Oliver Twist - texto de Charles Dickens, adaptação de Telma Guimarães - Companhia Editora Nacional

Vista isoladamente esta imagem será uma pintura, um desenho, uma gravura (e como tal poderá ser apreciada), mas não uma ilustração. Algumas vezes é a palavra que ilustra a imagem. 


O Brasil que veio da África - texto de Arlene Holanda - Editora Nova Alexandria

Um exemplo claro é o livro “
Desertos”, onde as imagens de Roger Mello (Nota do blog - não é a imagem acima, aqui todas as imagens são de livros ilustrados por Maurício Veneza) são ilustradas pelas palavras de Roseana Murray. Mas há um exemplo bem mais trivial: nos nossos jornais diários são as legendas que ilustram as fotos...



O leão e o macaco - texto de Ieda Oliveira - Editora Larousse

A analogia mais simples que me ocorre para o livro ilustrado é com a música popular. A música de Tom Jobim, por exemplo, tem força própria e independente, assim como os versos de Vinícius de Moraes. Mas, quando se juntam, formam uma terceira coisa que difere das duas anteriores e que não existiria sem esta associação.

Dona Onça é muito sonsa - texto de Maurício Veneza - Editora Prumo

Para o leitor infantil ou juvenil, há que se considerar a sua idade, as informações que já possui, a pertinência das imagens em relação ao tema abordado. E aí sim, entram os recursos plásticos, a técnica, a composição, a expressividade, o uso adequado de cores e contrastes. 
O cortiço - texto de Aluísio Azevedo - Editora BestBolso

Talvez a palavra mágica seja esta: adequação. Um texto que fale de uma criança com dificuldades de aprendizado será mais adequadamente ilustrado com um “bonequinho de palito” desenhado com giz de cera do que com uma pintura de Michelangelo.Que lugar é este? - texto de Maurício Veneza - Paulinas Editorial

Clique aqui para conhecer mais sobre o ilustrador Mauricio Veneza numa entrevista.

Tem um rinoceronte no banheiro - texto de Maurício Veneza - Ygarapé Books

Contatos com o ilustrador: mauricioveneza@ig.com.br

2 comentários:

  1. um coco grande
  2. EXELENCE O SEU TRABALHO

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

SP: Quintas (39)

A VERDADEIRA MAJESTADE


Por acaso eu lia Clarice Lispector quando pela primeira vez prestei atenção no cantor Roberto Carlos. E talvez por causa da Clarice ou por outro motivo que não vale vasculhar, ou talvez ainda porque a alma do acaso é o enigma, e ele, o enigma, não é propriedade dos supersticiosos, comecei a considerar curiosa a perturbadora presença do artista.
Mais tarde me dei conta de que a língua foi o gancho para que eu reparasse no ídolo. As críticas eram impiedosas contra aquele que era chamado de Rei da Juventude: tolices criadas pela mídia da época, como a de que os seus gestos eram femininos e podiam influenciar os jovens ou então que ele corrompia a língua, o idioma, com as gírias que propagava.
A resposta do artista foi uma canção chamada “Querem Acabar Comigo”. O episódio foi revelador. Há uma grandeza em se responder críticas com uma canção. Porém o que me interessou mesmo foi a questão da Língua, a história de se corromper o idioma. A Língua já se apresentava para mim como a verdadeira majestade.
Ela escoa, penetra em todos os vãos, é absoluta em seus discernimentos, na possibilidade de metamorfose. Não tem comando e não há lei que a estanque, é a vontade do povo, patrimônio do tempo, fonte que jorra das entranhas de uma nação.
Lembrei-me de um jardim, o único em que estive na minha infância, ou que ficou marcado na minha memória. Havia uma flor, seu nome: Dália. Alguém o pronunciou. Talvez ali tenha sentido pela primeira vez as profundezas do espírito da língua. Como há palavras que nascem dotadas de uma cativante sonoridade!
Mussolini, o ditador fascista, proibiu a Itália de usar o pronome Lei. A Itália usa adequada e rigorosamente todos os pronomes. O português é diferente, é mais maneiro. O acadêmico disse que a Língua Portuguesa é uma Língua inacabada. Penso que ela tem um jeito próprio de ser, um jeito tropical, eu diria. O caso dos pronomes é típico. Salvo em algumas regiões do Brasil, praticamente não se usa o pronome da segunda pessoa, o tu, e com a segunda pessoa se usa um verbo da terceira pessoa. Pode? Pode, é o jeito da Língua.
Pois bem, o fascista Mussolini proibiu o povo de usar o pronome Lei alegando que era feminino para ser usado por homens. Bobagem. A Língua é a Língua. Assim que o fascismo acabou o povo voltou a usar naturalmente nas ruas o pronome.
Tanto Mussolini quanto os críticos do ídolo da juventude se enganaram. Ninguém pode represar a Língua. Ela cuida de si mesma. A gíria, se tem sentido, se incorpora. O vocabulário se altera, as palavras mudam de sentido. Bacana é uma coisa numa época e na outra é algo diferente. E assim vai...
Em qualquer reino, ela, a Língua, é o poder maior. Sempre foi de fato o grande instrumento. É, enfim, a verdadeira majestade.

MARCIANO VASQUES