quinta-feira, 12 de julho de 2012

SP: Quintas (67)

O EQUILÍBRIO UNIVERSAL


Talvez comam tanta massa os italianos porque o país seja aquático. A natureza sobrevive pelo equilíbrio. Ele é o responsável pela “perseverança universal”. Todos os ingredientes de um organismo estão presentes na infinitude do universo.
O equilíbrio é a fonte inesgotável da sobrevivência. Isso se aplica aos relacionamentos. O respeito é o seu mediador. Não se abusa de uma amizade.
Também é aplicável ao planeta. Como o homem, a partir do XX, passou a interferir no equilíbrio planetário devastando verdes, promovendo queimadas, derramando óleo em esmeraldas, a reação já se faz notar, na confusão climática, no desgoverno da natureza...
A própria interferência no fator tempo, necessário ao bem humano, trouxe prejuízos sem retorno.
A pressa assumiu um vulto inesperado, o tempo tornou-se armadilha contra a paz individual, os coletivos caóticos metropolitanos perderam a sobriedade contemplativa. O homem cismou de enlouquecer Crono.
O hábito do relógio mecanizou-se. A tecnologia não conseguiu ainda resolver a necessidade inerente ao humano, de paz, mansidão e serenidade.
Insatisfeitos lazeres foram inventados como paliativos, ou sedativos para a dor da gregária vida em solidão.
Com o rompimento do equilíbrio e a interferência brusca no tempo, o ser ausentou-se, não mais está presente à mesa, e o sentido da busca afastou-se imperceptivelmente, dissolvendo-se no cotidiano dos fugazes quereres.
Presente à mesa significa reencontrar-se na conversa.
Ausente, o ser não se deu conta da decomposição da alma, e também não percebeu que a intransigência do tempo corrói a sua essência.
Sem saída, caiu nas garras assustadoras do “ter”.
Aceitou passivamente a sua “única condição”, a de consumidor, que lhe é ofertada como substituição da felicidade, como o ilusório que satisfaz. O acúmulo de bens materiais desvinculou-se do “necessário”.
Desprezando as leis universais e naturais de equilíbrio, presentes em seu próprio organismo e em sua própria alma, agiu em conformidade com os ditames industriais, que o levou à tecnologia do conforto inútil, ou seja, em plena avenida Paulista, solitário na multidão, pode receber uma foto em seu celular, mas a tecnologia não conseguiu trazer as soluções das suas necessidades básicas, entre as quais: desvincular-se da tirania do tempo, e restabelecer o olhar calmo como a lua no alto, como o salto do gafanhoto riscando o azul.
A tecnologia maravilhosa ainda não faz sentido na vida humana, tal como deveria, pois convive com a sua miséria e a falta de paz na alma, frutos do desequilíbrio presente em todos os “universos” da vida: o social, o natural, o político e o universal.

Marciano Vasques

terça-feira, 10 de julho de 2012

SP: Quem conta um conto... - Flávia Muniz

Olá! Este mês, trazemos para o espaço descontraído do Quem Conta um Conto uma fábula.
Quem a escreveu foi a escritora da AEI-LIJ Paulista: Flávia Muniz.
A fábula, toda em rimas, conta a história de uma perua que... Bem, leia você mesmo e divirta-se!


O ESPELHO E A PERUA

A confusão começou
Certa vez, no galinheiro,
Quando as aves encontraram
Um espelho no terreiro.

Uma perua vaidosa
Logo quis contar vantagem:
– Com licença, galináceas,
Vim conferir minha imagem!

A pata, torcendo o bico,
Comentou com a vizinha:
– Não vale arrancar as penas
para ficar mais magrinha!

E qual não foi a surpresa
Das aves estabanadas.
O reflexo do espelho,
Só mostrava coisas erradas.

Quem era alta e bela,
Viu-se feiosa e baixinha.
Quem era gorda, mais forte,
Ficou magrela e fraquinha.

– Credo! – grasnou o marreco.
– Cruzes! – o pinto piou.
– Incrível! – cantou o galo.
E o papagaio berrou.

A galinha carijó
Logo e depressa falou:
– Esse espelho tem feitiço,
Foi a bruxa que o mandou!

– Mentira! – disse a perua,
Balançando as pulseiras.
Li esse conto de fadas,
Vocês só dizem besteiras!

Estufou-se, bem danada,
Mostrando o papo vermelho,
E, com pose de malvada,
Fez a pergunta ao espelho:

– Espelho, espelho meu!
Responda se há no mundo
Outra ave mais bonita,
Mais charmosa e elegante,
Mais esperta e fascinante,
Mais incrível e imponente,
Mais formosa do que eu?
Diga logo, espelho meu!!

Os bichos, impressionados,
Ouviram com atenção
A resposta do espelho
À tamanha pretensão:

– Se você quer a verdade
Vou dizê-la, nua e crua,
E mostrar a realidade
Para uma simples perua.

– Você disse que é esperta,
Imponente e charmosa
Mas parece antipática,
Falando assim, toda prosa.

– Desfila o ano inteiro
Como se fosse a tal,
Mas foge do cozinheiro
Quando chega o Natal...

Postado por Eliana Martins às 19:10 


Um comentário:

Terê.12 de julho de 2012 18:15
ÊITA COISA LINDA, amei, parabens...

segunda-feira, 9 de julho de 2012

SP: Conto que te conto

O MAQUINISTA E A FLOR GIGANTE


Tá vendo aquele homem que vai subindo, moço? Aquele de boné e paletó. Isso! Ele mesmo. Não tira o boné de jeito nenhum. Acho até que toma banho de chuveiro com boné e tudo.
É o boné de quando ele era ferroviário, antes de enlouquecer. Isso mesmo! É ele a quem chamam de “Velho Louco”. É que o senhor é novo aqui na cidade, não conhece as histórias. Mas essa eu conto.
Desde que ele se aposentou, veio morar aqui, em Paranapiacaba. Ninguém liga para ele. Fica o dia inteiro zanzando. Às vezes fica bravo se os moleques provocam. Sabe como é moleque, não é? Gosta de debochar, arrumar confusão. E vira e mexe estão atazanando o pobre.
Sim, ele era ferroviário. Fazia a linha Santos-Jundiaí. Era uma delícia, seu moço. Eu não, nunca viajei de trem nessa linha, mas o meu pai contava, sempre, na hora do almoço. Quando eu era bem menininho até me lembro que segurava a mão do meu pai na estação do Brás. Mas não lembro direito.
Por que ele enlouqueceu? Essa demência eu conto, moço. Ele era maquinista, já disse, no tempo da Maria Fumaça, e numa tarde subia a serra quando avistou a enorme flor azulada. A flor mais imensa do mundo. Pouca gente viu. E quando alguém conta ninguém acredita. Mas ele jura que viu, e até hoje repete essa história maluca.
Diz que a flor é uma menina que desapareceu lá no Saboó, sabe onde isso é? Em Santos. É um bairro pequeno, rodeado de morros. Tem lá um cemitério chamado Cemitério da Filosofia. Sei não, moço, nem tenho ideia. Tem que perguntar para aquela gente de lá, os antigos, eu acho. Só sei que é esse o nome do cemitério.
Essa menina, dizem, corria feliz naquele lugar, e um dia desapareceu. Foi o alvoroço nas mesas de bilhar. No porto só se falou nisso. Ficou assim um tempão. Só se falava nela. Então o maquinista viu a imensa flor azul na serra e enlouqueceu. É o que contam, moço.
Não sei contar mais. Minha mãe também sempre falava desse caso. A menina era muito querida por todos. Era assim naquele tempo, lá no Saboó. Toda criança era como se fosse filho de cada morador, por isso foi um sofrimento danado, nas docas, nos morros, no matadouro. E era uma época de carnaval. Mãe dizia, tenho não, ela morreu. Perdi minha mãe logo cedo. Então, ela dizia que os bailes de carnaval foram todos tristes. Não cabia mais tristeza nos confetes e nas serpentinas. Minha tia Elenice, que sempre que era fevereiro ficava o mês inteiro fantasiada, naquele ano até esqueceu da ilusão. Ninguém podia se conformar, moço. O povo de lá comeu o feijão preto mais melancólico do mundo. Nada fazia aquelas pessoas voltarem a sorrir.
Quando o ferroviário chegou contando a história da flor azul gigante, ninguém quis dar ouvidos. E foi naqueles dias que ele adquiriu o costume de falar sozinho. Diz que é isso que enlouquece.
Veja! Ele sumiu na poeira. Está já misturado naquela fumaça azulada do horizonte.
Acho que toda cidade tem o seu personagem, não é? Aqui é ele, o ferroviário aposentado, o homem louco que viu a flor gigante na serra.

MARCIANO VASQUES


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Olá, pessoal!!!

Conto que te conto, página criada por Marciano Vasques está aberta à participação de todos. Peço que me enviem contos curtos, de uma lauda. Obrigada.
Parabéns Marciano!

Bjs da Regina Sormani

sábado, 7 de julho de 2012

SP: Página do Rospo (8)



A ARTE NÃO SE COMPRA


—Estou muito feliz por você ter aceito o meu convite, Sapabela. Faz tempo não vinha ao museu.
—Eu também estou feliz, Rospo. Recentemente, me pus a pensar no preço que pagam por telas clássicas...
—Curioso isso, Sapabela.
—O que tem de curioso? Quem tem dinheiro pode adornar a sua morada com coleções de arte...
—Isso não me parece simples, de imediato.
—Rospo, eu o conheço. Diga o que está pensando.
—A arte não tem preço.
—Concordo.
—Se a arte não tem preço, não pode ser comprada.
—Parece lógico.
—O que não pode ser comprado não pertence a ninguém. E não será mercadológico.
—Óbvio. E gosta de rimar a minha conversa.
—Então, ninguém pode ser dono da arte.
—O que é de ninguém é de todos.
—O mesmo se diz sobre a literatura e a poesia.
—E até uma cantiga de criança.
—Naturalmente.
—Se a arte é de todos, ela é do mundo. A Arte está em toda parte.
—A árvore é do mundo, e tudo que nele está, virou mercadoria. É a lei da sobrevivência.
—Correto. No caso da árvore, temos para com ela uma gratidão infinita.
—Temos?
—Filosoficamente sim. Mas ninguém se lembra da árvore quando risca um palito de fósforo ou se senta à mesa para jantar... Ou leva o chocalho ao bebê no berço...
—Entendo, mas qual é a questão, Rospo? Árvore é árvore, e Arte é Arte.
—Eis a grande diferença, o grande mistério.
—Diga mais.
—A árvore foi “civilizada”, ou seja, ela se tornou benéfica para o sapo e então, foi transformada em coisas que já não eram mais árvores, porém estava lá cumprindo o seu ritual de servir, de propiciar conforto... Separou-se, quer dizer, foi separada da comunhão.
—Tudo bem, mas assim como a árvore, também a arte nasce e vive para trazer felicidade ao sapo... Assim como a poesia, a literatura. São formas da felicidade.
—Mas em outro plano, Sapabela. No caso da Arte, ela não pode ser comprada.
—Tem certeza?
—Quando alguém compra um livro está comprando o objeto transportador das letras, o acondicionador...O livro se compra, mas a poesia não, a literatura não. Elas jamais pertencerão a alguém em particular. A literatura e a Poesia pertencem ao mundo...
—Entendi. Pelo menos penso que entendi.
—Como pode alguém comprar a poesia, se a mesma poesia eu a tenho em mim, compreendeu?
—Sim, isso só seria possível se não houvesse um só alguém que memorizasse um poema, que o preservasse em sua memória, que introjetasse o poema em si. Milhares de seres caminham nas calçadas do mundo levando consigo a poesia... Como vê, poesia e carro são diferentes. Se alguém compra um livro e o coloca na estante, e o livro servirá de adorno, esse alguém não tem a poesia em si, ele tem apenas o objeto, nem poderá se dizer livre, que é o chamado do livro.
—Do que fala, Rospo?
—O livro diz: Livro! Mas só pode de fato garantir a liberdade para a alma que o transportar em si. Quem compra e tem muitos livros mas não os abriu jamais, tem algo que não diz nada. Parece complicado, mas é. Porém, a complicação é apenas a opção do conforto, do não movimento da mente.
—Sei, e a Arte...
—Veja esse quadro. Que coisa bela!
—Ama a pintura clássica, não é, Rospo?
—Veja que o quadro está aí na parede, mas é só o objeto transportador, compreende? Uma reprodução desse quadro poderá estar no apartamento de alguém.
—Sim?
—Mas a arte, que se expressou na pintura, como o poderia ter feito na música. Isso, essa coisa, está além do quadro. Está nas mentes e nos corações. O que seria a Guérnica, de Picasso, por exemplo, se tivesse permanecido apenas numa tela?
—Claro, Ropo! Algo me veio num clarão! A Guernica de Picasso está em mim, na minha mente, na minha alma, no meu coração. Ela representará sempre para mim o horror diante da guerra. Mesmo que eu não venha ao museu, ou não vá ao Google, essa arte que se expressou numa tela, estará sempre em minha consciência, é tão simples!
—A simplicidade é a segunda opção, mas requer, clama para sim um esforço, um grande empreendimento do pensar, que é a dádiva mais emocionante na vida de um sapo.
—Rospo, isso se aplica em qualquer Arte.
—Claro, você pode comprar um Long Play de cantigas de crianças. Mas as cantigas estarão onde sempre estiveram, no coração das mães que as cantam e ensinam aos seus pequenos.
—As professoras, os pais...
—Isso mesmo, Sapabela! Quem disse que eu posso comprar “O Cravo Brigou com a Rosa”?
—Pode não, Rospo. E esse quadro, ou seja, a Arte que nele está emoldurada eu a levarei comigo, e falarei dela um dia para alguma Sapabelinha. Tenho até vontade de chorar.
—Mas não chore. Museu é local de felicidade, de alegria.
—Rospo, viva a Arte! E quero um riso alto de montanha encantada. Um riso que será uma gargalhada, que é também uma bonita forma de chorar de felicidade.
—A Arte vive, pois não se pertence mais a partir do momento em que nasceu.
—Já pensou se tivéssemos que pagar direitos autorais pelo que habita o meu pensamento, e o meu coração?
—Sapabela, que alegria estar num museu com uma amiga tão preciosa...
—Rospo, veja aquelas esculturas!
—Pois é, elas estão nas calçadas do mundo. Já não se pertencem mais. Tornaram-se expressões artísticas do mundo.
—Rospo, sei que sou elegante, mas fico sempre em dúvida: sou a Arte ou uma obra de arte?
—Você é arteira.


MV

sexta-feira, 6 de julho de 2012

SP: Um livro do qual gostei muito - Bicho homem



BICHO HOMEM


O primeiro livro do autor. As ilustrações, que capricho, que beleza!Criança viu, adorou. Não saberia eu destacar uma página, a das rãs, é tudo de bom. Os olhos param.
A página daquele galho com as folhinhas, é demais. A artista: Marcia Misawa. Quando menina, gostava de desenhar no chão e ver a chuva passar.

Quer conhecer as vozes dos bichos? É poesia pura, por demais poético. Poesia nos verdes, nas páginas ensolaradas, nas quais bichos arrulhavam, um grasnou, alguns gorjearam. Num encanto só.

Tem até bicho sibilando! Li de uma só vez, feito menino puro, repleto de vontade de desbravar esse mundo.

O que acontece de trágico para essas vidas indefesas, é apresentado aqui com extrema delicadeza poética. O forasteiro vem aí.

Leio diariamente pelo menos um livro infantil. Isso tornou-se um hábito e uma necessidade em minha vida. E faz tempo não lia um assim com tanta alegria, aquela alegria intensa e súbita que brota declarando-se felicidade. Esse vozerio todo, esse alarido, amplia muito mais do que o vocabulário da infância, amplia um sentir, um modo de ser e de se posicionar diante da triste agressão à natureza e aos seus fiéis habitantes.

Quando li “Bicho Homem” ganhei a minha alvorada.

Na última página, o autor diz que ama bichos, crianças, velhos e livros. Ama bichos? Nem precisava dizer!

Livro:BICHO HOMEM
Autor: NELSON ALBISSÚ
Ilustração: MARCIA MISAWA
Editora: CORTEZ
32 páginas

Comentários de Marciano Vasques

quinta-feira, 5 de julho de 2012

SP: Quintas (66)

O LÁPIS VERMELHO


Oal Aul Ial Lá estava eu, quem diria, com ele em minhas mãos. Entre tantas coisas tão importantes, como o pião, as bolinhas de gude de translúcidos verdes e azuis de pedrinhas iguais aqueles olhos.
Aquela menininha que segurava em minha mão na "O cravo brigou com a rosa", e agora, já homem sei porque os olhos já marejaram nessa cantiga mais de vez.
E eu, que já havia sido tudo: um palhaço de circo de quintal, o mocinho, o bandido, o índio, e corríamos e as palavras iam surgindo aos montes, em nossos corações, e então, porque se fizera assim tal menino, as palavras quando chegavam já iam direto para o coração.

E nos escondíamos atrás do anis, do poejo, já falei dessa miudeza toda.
Estou me arriscando escrever direto aqui pois está ameaçando chuva forte e até já andou trovejando, e se faltar a energia elétrica tenho receio de perder tudo, mas vou em frente. Então vou para o Blog, é mais seguro. É uma casa azul, não é? Com alguém que já está na janela.
Pois então eu ficava bobão mirando para ele, e falei das palavras, e elas vinham aos montes: romã, rã, mamona, mas naquele momento eu esquecia todas elas, porque não era um momento de palavras. E se pudesse laçar cada momento desses que passaram!, que não eram momentos de palavras. Como eu ficava com os olhos de nuvem diante da menina que eu queria namorar. Sardentinha, vestidinho, um anelzinho de vidro que ela exibia demais. Meu Deus! Mas eu estava lá, com ele, em minhas mãos. Hexagonal, um lápis tão grande, tão bonito, que lindo era! O meu primeiro lápis de cor, um lápis vermelho. Eu nem sabia como segurar um lápis assim daquela formosura e encanto.
De tudo que me encantava, começando pelos gibis e as manhãs nas trilhas dos eucaliptos, e ver sempre uma menina tão linda, que passava e nem sorria quando era perto do portão mas lá na ponta da rua ela se virava e acenava com um dos braços dando Tchau, e era de lua africana nos cabelos, era toda áfrica aquela menininha e nunca soube ao certo se era um truque de fada africana que a mandou só para embelezar mais aquela rua, e outras tantas coisas que encantavam, pois o que mais tinha era encantamento, era diferente, não tinha esse prazer de ficar dedilhando joguinhos, era uma coisa viva. Se o tempo era melhor? E eu sei lá! Isso tem que perguntar pro tempo. O que sei é que naquele dia, que era frio, e então, para ficar tudo mais bonito eu estava resfriado, pois não obedecia e isso agradeço muito quem fingia que eu obedecia e então lá estava no caule da goiabeira e varando ventos e capinzais zarpando no vento frio que era de tremer, e na chuviscada até que não tinha jeito e entrava em casa, naquela casa rica de folclore.
Mas quero falar dele. Ele, de madeira, a madeira da árvore, que nos acompanha vida toda, e até naquele dia, que agora é melhor afastar pensamento e falar dele, não só da formosura, que isso nem precisa dizer, pois todos sabem, ou deveriam saber que um lápis é a coisa mais bonita que tem na mão de um menino, inda mais um lápis vermelho todo geométrico. Quero é falar da felicidade, essa coisa que sempre surge e adulto nem sabe direito o que é, e ela é feita de momentos, de riscos, de traços, tudo coisa passageira, mas vale tanto, meu bem...
E ele estava lá, em minhas mãos, e eu apertava forte para que ele não escapasse. Que lápis maravilhoso! Como me arrependo por não ter guardado nem um pedacinho dele. Já pensou?
E foi assim. Nada importou mais naquele dia. Nem a nuvem de tanajuras, nem os gansos fazendo escarcéu nas ruas, nem os alaridos das crianças, nem sequer as histórias com rabanadas ou bolo de fubá. Nada, só ele. Lindo, dono de minha alma. Ah, se essa alma tivesse sido desenhada e eu colorisse com ele!
Mas acho que fiz isso, sem saber, afinal menino é uma estrutura maravilhosa. E como me lembrava que eu o beijava naquele dia de tão feliz que estava, lápis vermelho, hoje, um beijo. Faz bonito com as outras crianças,

MV

quarta-feira, 4 de julho de 2012

SP: Um livro do qual gostei muito - O monstrinho medonhento

O monstrinho medonhento

Olá, pessoal!

"O monstrinho medonhento" obra do grande ator, autor e compositor Mário Lago é uma história interessante, um pouco alegre, um pouco triste. Surpreendente.
Creio que não será muito fácil encontrá-la nas grandes livrarias, pois foi publicado pela editora Moderna em 1984, tendo alcançado mais de 20 reedições. Recomendo que procurem num sebo, onde, sabendo-se escolher, pode-se encontrar bons livros. Meus filhos leram esse livro para trabalhos escolares e lembro-me que gostaram muito.

Quando os habitantes da Cidade dos Homens souberam que um monstro iria nascer, ficaram assustados e muitos deixaram a cidade. Medonhento nasceu no Palácio dos Horrores, herdeiro do senhor Monstro Terrível e de dona Monstra Perigosa. Para esperar pelo momento do nascimento, vieram monstros, feiticeiros, bruxas e todo tipo de criaturas pavorosas. Todos, muito ansiosos para ouvir o primeiro urro de Medonhento. A imprensa e a televisão lá estavam, é claro, para noticiar tão impressionante evento.
No exato momento do nascimento, o mensageiro do palácio gritou:
- Parem com essa barulheira! Está nascendo!
Quando Medonhento acabou de nascer, a multidão rodeou seu berço que era uma panela feita de esqueletos e todos ficaram aguardando o tal urro medonho. O urro que iria rachar o mundo no meio. O monstrinho abriu a boca e...sorriu ao dizer:
- Com licença...
Disse isso, com voz de anjo, o que é muito pior, em se tratando de um monstro.

Numa entrevista, o autor explicou que a história surgiu de uma pergunta feita por sua esposa, durante uma conversa a respeito dos dias atuais:
- Será que os filhos dos monstros não acham desagradável a profissão dos pais?
Convido o leitor a responder essa pergunta e descobrir outras respostas, lendo este livro muito, muito interessante.

Um beijo,
Regina Sormani

terça-feira, 3 de julho de 2012

PR: Livros Renascem!



Livros renascem. Ao terminar o ciclo deles numa editora, mudam de casa e aparecem de cara nova em outra. O autor, muitas vezes aproveita para dar uma pincelada nova no texto. O ilustrador geralmente muda também. 

Glória Kirinus da AEILIJ-PR, apresenta seu livro muito amado pelos leitores, que ganhou cara e casa nova. 

Acaba de chegar da editora Melhoramentos: Tartalira!!! 

Que esta tartaruga lírica renove o carinho dos leitores e que corra mil e uma aventuras, sem atalhos, pelo caminho longo... para parando para temperar o tempo/ para parando para contemplar a vida...


Postado há 3rd July 2012 por Marilza Conceição
Localização: Curitiba - PR, Brasil

domingo, 1 de julho de 2012

SP: Página do Rospo (7)



DIÁLOGOS ANCESTRAIS


—Rospo, precisa ser um pouco vaidoso.
—A vaidade deixo com exclusividade para você, Sapabela. Uma sapa vaidosa é tudo de bom.
—Hoje, Rospo, o sapo também se preocupa com a aparência. Ele também se cuida.
—?
—Se ficou mudo é sinal de que vai pensar. Promete? Vai?

—Sapabela, certa vez um professor de Metafísica comentou em tom debochado: "Os gregos tinham deuses para tudo".
—Promete que vai pensar, Rospo?
—Eu fiquei anos pensando na fala daquele professor...
—E então?
—Então esperei o dia em que eu viesse a compreender essa questão.
—Com o professor?
—Não! Com os gregos.
—E chegou a alguma conclusão?
—Fiquei emocionado ao saber que a imaginação ocupou de forma tão profunda e criativa o espaço  do conhecimento científico que eles não tinham.
—Isso é fascinante. Emocionante. Maravilhoso!
—Verdade. Na ausência  do conhecimento científico a imaginação exerceu o seu poder numa expansão jamais vista nos tempos que viriam. Terremotos, vulcões, ondas, vagalhões no mar, noite, tempestades...Tudo isso deu origem à monstros, criaturas terríveis, e também deuses, titãs, deusas...
—É de fato encantador, a incompreensão dos fenômenos da natureza engendrou um universo de deuses e criaturas jamais vistas em qualquer outro tempo
—E tem mais.
—É?
—Os mitos são tesouros da mente humana, atravessando milênios.
—Por que diz isso, Rospo?
—O mito se refere ao seu interior, à sua mente, ele estará dentro de você...Se você tiver o dom de ouvir.
—Ouvir virou dom?
—Em nossos dias sim.
—Então, o mito diz sobre nós, ele fala ao nosso interior, ao ser de cada um, ele  tem mensagens para a alma de cada um.
—Isso, Sapabela. São mensagens entesouradas em nós. Cada um deve procurar a sua conversa com o mito...E permitir que ele entre dentro de si, o lugar sagrado...
—Sagrado?
—Sim, dentro de cada um colidem universos, mundos... Reinos...
—Reinos?
—Exato. Dentro de cada um está o céu, e todos os mundos... E o reino Daquele que é. E muitos já sabem: Ele é em você.
—Rospo, tem sapo que já escreveu isso.
—A palavra, Sapabela, está numa corrente universal infinita e pertence à todos. Quando ela sai do papel e penetra no interior de alguém, esse alguém torna-se portador da palavra. E se alguém escreveu algo sobre os mitos nos tempos dos tempos, esse alguém nos herdou, nos devolveu a necessidade de ouvir, ou ler. Por isso, como eu já disse, procure salientar a sua conversa com o mito. E não se esqueça, tudo isso está num plano superior. Basta simplesmente ser portador da coisa mais difícil.
—O que vem a ser essa coisa mais difícil?
—O "Querer".
—Coisa mais simples.
—Vai pensando, vai pensando...
—Rospo, ouvir uma narrativa mítica é ouvir. Não conversar.
—Ouvir verdadeiramente é uma forma de conversa. E quando você se inclina para o chamamento do mito, você já está em pleno diálogo dentro de si. Ouvir nesse caso é uma ação dialógica.
—Eu sempre leio.
—É o passeio ancestral dos olhos.
—Rospo, que bom me dizer essas coisas, mas, fale: vai pensar no que eu falei sobre o sapo também ser vaidoso? Lembre-se: a boa vaidade melhora o mundo.
—Sapabela, você não desiste?
—Por acaso já procurou o significado do meu nome?
—Não. Qual é?
—Sapabela significa "Aquela que não desiste".
—Impressionante!

MV

SP: Vice-Versa de julho de 2012

Queridos amigos!

Em julho, as escritoras Laura Bergallo e Stella Maris Rezende da AEILIJ RJ, fazem um belo Vice-Versa.
Parabéns e obrigada pela participação.
Um beijo,
Regina Sormani

Laura Bergallo

Stella Maris Rezende (foto de Ana Lasevicius)


Perguntas de Stella Maris Rezende para Laura Bergallo

1. Escrever para jovens e não ter o claro objetivo de ensinar, dar lições de moral, facilitar o entendimento, escrever sobre coisas que se acredita serem do interesse deles, ou seja, tudo o que distancia o texto da verdadeira Literatura, que é transgressão, rompimento com a expectativa, trabalho árduo com a linguagem, não fazer concessões, lidar com metáforas e elipses, com entrelinhas ou silêncios carregados de diferentes significados, tudo isso é um grande desafio para nós. O que pensa sobre essa imensa dificuldade em fazer Literatura e ao mesmo tempo encantar e seduzir o leitor jovem?

R - Acho que o maior de todos os desafios não é exatamente fazer Literatura e ao mesmo tempo encantar o jovem leitor. Esse é, sem dúvida, um grande desafio, ainda mais nos nossos tempos de tantos “brinquedinhos” tecnológicos de assimilação bem mais “fácil” e mais passiva, e de marketing muito mais poderoso. Mas, com relação a escrever literatura juvenil sem o claro objetivo de ensinar ou dar lições de moral, na minha opinião o maior desafio, mesmo, é ser capaz de romper as amarras do “politicamente correto” e ter a coragem e a ousadia de desafiar padrões estabelecidos pelos editores, por setores importantes da crítica especializada e por muitos daqueles que, em última análise, fazem a seleção dos livros que os jovens vão ler (uma vez que, infelizmente, no Brasil, a literatura para jovens só é maciçamente consumida através da escola, pública ou privada). Esse é um desafio realmente complicado, já que quem vai “consumir” o livro não foi quem o escolheu; são dois públicos distintos, em alguns aspectos até mesmo opostos. Encaixo aqui um pequeno texto do escritor Mario Vargas Llosa, que expressa exatamente o que sinto a esse respeito: “A literatura não é edificante, ela não mostra a vida como ela deveria ser. Ela antes, mais amiúde, ilumina em suas expressões mais audaciosas, com suas imagens, fantasias e símbolos, aspectos que, por uma questão de tato, bom, gosto, higiene moral ou saúde histórica, tratamos de escamotear da vida que levamos”. Como conciliar essa postura com as “necessidades” de um mercado (de literatura infanto-juvenil) que precisa “prosperar”? Pergunta dificílima de ser respondida...

2. Quais são os seus autores preferidos, entre estrangeiros e brasileiros? Se quiser, diga o motivo da preferência.

R - Desde que me alfabetizei li de tudo um pouco. Sempre tive uma imensa curiosidade de conhecer todos os tipos e estilos literários, de todas as épocas e lugares, sem preconceitos de nenhuma espécie. Ler, para mim, sempre foi uma viagem, um inigualável prazer. Assim, entre os clássicos brasileiros, posso citar meu preferido (que é um lugar- comum, sei bem): Machado de Assis. Entre todos os seus livros, dois me chamam especial atenção: “Memórias Póstumas de Brás Cubas” e “Esaú e Jacó” – duas obras tão diferentes entre si que não saberia responder o porquê dessa minha preferência. Também gosto demais dos escritores latino-americanos, com destaque especial para Gabriel Garcia Marquez e Mario Vargas Llosa. “O Amor nos Tempos do Cólera” (entre outros igualmente maravilhosos), do primeiro, é um dos mais emocionantes livros que já li, e se liga muito estreitamente a um período de minha vida do qual sinto imensa saudade. Do segundo, amo em particular “Pantaleón e as Visitadoras”, “A Casa Verde” e “Tia Julia e o Escrevinhador”. Finalmente, não poderia esquecer a autora de livros tão emocionantes quanto “A Casa dos Espíritos”, “De Amor e de Sombra”, “Eva Luna” e “Paula”: Isabel Allende, em sua primeira fase (não gosto tanto de suas obras mais recentes). Quanto aos escritores de países mais longínquos que me vêm agora à memória, poderia citar Émile Zola, Eça de Queiroz, Kafka, Milan Kundera, José Saramago, Lewis Carroll e muitos outros por quem me apaixonei. Lista eclética, não é mesmo? E, como eu disse antes, totalmente sem preconceitos...

3. O que pensa dos best-sellers? Vendem muito bem, mas em geral não recebe prêmios literários, não são considerados Literatura. Existiria um modo de um livro se tornar best-seller e ser de alta qualidade literária? Poderia citar alguns exemplos?

R - Também não tenho nenhum preconceito contra best-sellers, a priori – isso seria uma redundância? Já li alguns de que gostei bastante, e muitos outros que detestei, me perguntando como é possível alguém gostar de tamanha porcaria. Como não especialista (sou amadora) na área de Literatura (tenho formação em Comunicação Social, sou apenas uma jornalista que escreve livros), posso somente falar de gosto, de opinião; não me sinto à vontade para fazer julgamentos técnicos. Entretanto, acho precipitado colocarmos todos os best-sellers no mesmo saco – o que cai na preferência do público nem sempre é bom, mas não é necessariamente ruim.
Um exemplo de best-seller que achei incrivelmente ruim: “A Cabana”, de William P. Young (chega a ser inacreditável que alguém tenha publicado uma “coisa” dessas). Dois exemplos de best-sellers de que gostei muito: toda a série Harry Potter e “O Filho Eterno”, de Cristóvão Tezza.

4. Amo seu livro “Jogo da Memória”, tanto o texto quanto o projeto gráfico. Ele foi finalista do Prêmio Brasília de Literatura agora em 2012, quando fiz parte da Comissão Julgadora. Pode me dizer qual é o seu livro preferido (de sua autoria) e o porquê?

R - Em primeiro lugar, gostaria de expressar minha surpresa: realmente não sabia que “Jogo da Memória” foi finalista do Prêmio Brasília de Literatura. Legal saber... Quanto à pergunta, ô perguntinha difícil de ser respondida! É mais ou menos como se alguém perguntasse de qual dos meus filhos eu gosto mais... Posso tentar escapar pela tangente, dizendo que recentemente tive uma experiência com a escrita que me trouxe muito prazer: escrever contos. E de terror. Com tecnologia no meio. Trata-se de meu mais recente livro, “Cibermistérios e Outros Horrores” (Rocco Jovens Leitores, 2011). Foi realmente muito divertido escrever esse livro. E com ele descobri que escrever contos é mais light. É que, quando estou escrevendo uma novela, fico o tempo todo envolvida, “tomada”, quase “mediunizada”. As ideias vêm com tanta força e tanta teimosia que não me deixam nem dormir. Um turbilhão interminável. E isso (embora seja muito bom!) cansa, sabe? Já quando escrevo um livro de contos posso fazer uns intervalos, entre um conto e outro, para relaxar da “tensão criativa”. O que me deixa mais zen... e eu adoro ficar zen!

Rio de Janeiro, 27/6/2012.


Perguntas  de Laura Bergallo para  Stella Maris Rezende 

1. Você é uma campeã em premiações e menções honrosas, tendo inclusive um livro (Último Dia de Brincar, de 1987) entre os Melhores Livros de Literatura Infantil do Século XX. Mas é também professora, cantora, atriz, artista plástica e dramaturga – é uma artista completa. Como faz para conciliar tantos talentos, e ainda ter essa produção literária tão vasta e tão amplamente aplaudida pela crítica?

R - Desde menina, sempre gostei de teatro, de ler, escrever, cantar, desenhar, pintar, dar aulas, contar histórias, encantar as pessoas com palavras e silêncios misteriosos. Já participei de festivais de música, compondo e cantando. Já fiz televisão, quando interpretei a Fada Estrelazul do Programa Carrossel na TV Brasília/Manchete, e a Tia Stella na TV Capital/Record, no final da década de 1970 e no início da de 1980. Ganhei prêmios como pintora e fiquei muito conhecida em Brasília, onde morei por mais de 30 anos, principalmente devido ao sucesso da Fada Estrelazul e dos vários prêmios literários em nível nacional. Penso que sou muito organizada, metódica, o que me faz ter tempo para fazer coisas diferentes e ao mesmo tempo interligadas pelo objetivo único de encantar e emocionar as pessoas. No início, era mais complicado, porque eu lecionava o dia inteiro e à noite, para pagar as despesas. Escrevia, lia, desenhava, atuava na televisão e no teatro, cuidava dos filhos e da casa. Quando me aposentei como professora, tudo se tornou mais fácil, principalmente agora, que meus filhos são independentes e eu moro sozinha em Botafogo, de frente para a enseada e o Morro da Urca. Deixei de lado as artes plásticas, mas sinto que elas continuam no meu trabalho, ao descrever o cenário de um romance ou a figura de uma personagem. Nas escolas, ao conversar sobre meus livros, a atriz reaparece, quando leio um trecho ou um capítulo. Canto um pedacinho de música que faça parte do texto e isso me traz de volta a cantora que sou e que não pôde seguir carreira, porque a Literatura sempre foi a minha maior paixão, o meu maior sonho, a minha vocação mais verdadeira e mais exigente.

2. Nascida em Minas Gerais, você viveu algum tempo em Brasília e hoje mora no Rio de Janeiro. De que forma essa vida de certo modo “itinerante” influencia (ou influenciou) sua obra e seus múltiplos talentos? Para escrever bem é preciso viver bem?

R - Como sou mineira de Dores do Indaiá, perto da Serra da Saudade, e a mineiridade é impregnada de inquietude, um tresmodo de ouvir e falar na hora certa, com a palavra que surpreenda pelo humor, siligristida de sonoridades, ardilosa e tranchã, e por me chamar Stella Maris que significa estrela-do-mar, sempre me senti atraída pelo mar. Quando estive no Rio pela primeira vez, aos quinze anos, disse para mim mesma: eu quero morar nesta cidade. O sonho demorou a ser realizado, mas como diz a protagonista do meu romance “A mocinha do Mercado Central”, Globo Livros, “sonhar é uma boa prática”. No final de 2006 comecei a me organizar para mudar para esta cidade que amo cada vez mais, embora a mineiridade permaneça em mim e seja a matéria-prima do meu trabalho de escritora. Gosto muito de viajar, conhecer outros lugares e outros costumes, tudo isso enriquece o meu olhar sobre a condição humana. Para escrever bem é preciso viver bem, mas viver bem não é só viajar e conhecer outras pessoas e outros lugares. Machado de Assis é o nosso maior escritor e pelo que sei quase não viajava, nunca saiu do Brasil. “Viver bem” é principalmente observar e ouvir muito, ler e reler livros, prestar atenção em tudo, em cada detalhe, porque qualquer coisa tem algo a nos dizer, mesmo que seja uma simples xícara com a asa quebrada.

3. Você desenvolve a oficina Letras Mágicas, com a qual viaja pelo Brasil e por outros países de língua portuguesa a convite de escolas, universidades, bibliotecas, centros culturais, congressos e feiras do livro. Nessas andanças, como tem sentido a receptividade do público, especialmente o infanto-juvenil, à leitura e às atividades literárias? Você acha que as novas tecnologias estão diminuindo (ou podem vir a diminuir) o interesse e o tempo disponível para os livros? O que sugere a esse respeito?

R - A oficina Letras Mágicas tem tido uma receptividade maravilhosa, porque trabalho com simplicidade e provoco nos participantes o encantamento pela palavra e pelo silêncio, a entrelinha, a pausa, o que não foi dito claramente, o que foi apenas sugerido. Penso que o ser humano nasceu para a sofisticação, para o mais bonito e o mais bem-feito. Só precisa ter acesso a boas oportunidades de fruição estética. As novas tecnologias podem conviver muito bem com o texto literário, com o livro em papel ou em tablet, não importa. É claro que o livro em papel ainda vai encantar por muito tempo, é um prazer especial e mais poético. Meu filho mais velho, que adora
cinema, praticamente só lê Literatura e Filosofia em tablets, mas isso não diminui o valor artístico da obra que ele lê. Em resumo, haverá um dia em que o suporte não será o mais importante e sim a permanência da busca pela beleza da arte. A Literatura fala por silêncios e cala por palavras. Enquanto isso existir, existirá boa qualidade literária, e haverá leitores apaixonados por essa magia delirante da linguagem. Todas as artes são importantes, mas creio que só o texto literário toca mais profundamente a alma humana, permeia a perplexidade da existência, estimula a imaginação, o sonho, a criatividade, a vontade de reinventar o mundo. Lutar por um Brasil Literário, que era o maior sonho do nosso querido e inesquecível Bartolomeu Campos de Queiros, pode ser o modo de os livros continuarem a encantar as futuras gerações. Uma das maneiras de se lutar por um Brasil Literário é o escritor não abrir mão da boa qualidade literária e ter garra e coragem de falar sobre a importância dessa arte, ainda que use outras mídias, não importa, porque ao se tornar leitor de um texto literário, a criança, o jovem ou o adulto refinou o gosto, aprendeu a exigir mais, está mais rico em perguntas, questionamentos, sonhos e imaginação.

4. Finalmente, gostaria de conhecer um pouco de seus planos para o futuro. Quais são seus próximos projetos, entre livros, vídeos e outras obras?

R - Fiz o roteiro para um curta-metragem de um dos meus livros e é bem provável que eu atue como atriz. Além disso, ainda tenho o sonho de gravar um CD com uma velha letra composta por mim e musicada por Didi Moreno e outras letras com as melodias compostas pelo meu filho mais novo, Renato de Rezende. Estou trabalhando em novos romances e contos. Lancei 2 livros em 2011, outros 2 em 2012 e possivelmente lançarei mais 2 em 2013. Mas são textos com que venho trabalhando há vários anos. Nenhum livro meu demorou menos que 1 ano para ser escrito. Meu processo de escrita é longo e demorado, e como escrevo dois ou três textos ao mesmo tempo, de vez em quando lanço 2 ou até 4 num ano só, como aconteceu em 1988, ao ganhar o Prêmio Bienal Nestlé. Quero continuar gravando vídeos para o Youtube, falando primeiramente de cada livro meu, do meu fã-clube (jovens de Nova Iguaçu que conheci no Salão do Livro da FNLIJ em 2009 e se tornaram meus fãs, me acompanham em todos os lançamentos e me ajudam na divulgação da minha obra), dos meus tempos de Fada Estrelazul e Tia Stella. Depois, quero falar de livros de outros autores que admiro, entrevistá-los, trocar ideias, continuar lutando por um Brasil Literário. O importante é dar asas à atriz que nunca deixei de ser. A atriz que ama a Literatura, as metáforas, as elipses, segredos e revelações da misteriosa condição humana.