domingo, 1 de julho de 2012

SP: Vice-Versa de julho de 2012

Queridos amigos!

Em julho, as escritoras Laura Bergallo e Stella Maris Rezende da AEILIJ RJ, fazem um belo Vice-Versa.
Parabéns e obrigada pela participação.
Um beijo,
Regina Sormani

Laura Bergallo

Stella Maris Rezende (foto de Ana Lasevicius)


Perguntas de Stella Maris Rezende para Laura Bergallo

1. Escrever para jovens e não ter o claro objetivo de ensinar, dar lições de moral, facilitar o entendimento, escrever sobre coisas que se acredita serem do interesse deles, ou seja, tudo o que distancia o texto da verdadeira Literatura, que é transgressão, rompimento com a expectativa, trabalho árduo com a linguagem, não fazer concessões, lidar com metáforas e elipses, com entrelinhas ou silêncios carregados de diferentes significados, tudo isso é um grande desafio para nós. O que pensa sobre essa imensa dificuldade em fazer Literatura e ao mesmo tempo encantar e seduzir o leitor jovem?

R - Acho que o maior de todos os desafios não é exatamente fazer Literatura e ao mesmo tempo encantar o jovem leitor. Esse é, sem dúvida, um grande desafio, ainda mais nos nossos tempos de tantos “brinquedinhos” tecnológicos de assimilação bem mais “fácil” e mais passiva, e de marketing muito mais poderoso. Mas, com relação a escrever literatura juvenil sem o claro objetivo de ensinar ou dar lições de moral, na minha opinião o maior desafio, mesmo, é ser capaz de romper as amarras do “politicamente correto” e ter a coragem e a ousadia de desafiar padrões estabelecidos pelos editores, por setores importantes da crítica especializada e por muitos daqueles que, em última análise, fazem a seleção dos livros que os jovens vão ler (uma vez que, infelizmente, no Brasil, a literatura para jovens só é maciçamente consumida através da escola, pública ou privada). Esse é um desafio realmente complicado, já que quem vai “consumir” o livro não foi quem o escolheu; são dois públicos distintos, em alguns aspectos até mesmo opostos. Encaixo aqui um pequeno texto do escritor Mario Vargas Llosa, que expressa exatamente o que sinto a esse respeito: “A literatura não é edificante, ela não mostra a vida como ela deveria ser. Ela antes, mais amiúde, ilumina em suas expressões mais audaciosas, com suas imagens, fantasias e símbolos, aspectos que, por uma questão de tato, bom, gosto, higiene moral ou saúde histórica, tratamos de escamotear da vida que levamos”. Como conciliar essa postura com as “necessidades” de um mercado (de literatura infanto-juvenil) que precisa “prosperar”? Pergunta dificílima de ser respondida...

2. Quais são os seus autores preferidos, entre estrangeiros e brasileiros? Se quiser, diga o motivo da preferência.

R - Desde que me alfabetizei li de tudo um pouco. Sempre tive uma imensa curiosidade de conhecer todos os tipos e estilos literários, de todas as épocas e lugares, sem preconceitos de nenhuma espécie. Ler, para mim, sempre foi uma viagem, um inigualável prazer. Assim, entre os clássicos brasileiros, posso citar meu preferido (que é um lugar- comum, sei bem): Machado de Assis. Entre todos os seus livros, dois me chamam especial atenção: “Memórias Póstumas de Brás Cubas” e “Esaú e Jacó” – duas obras tão diferentes entre si que não saberia responder o porquê dessa minha preferência. Também gosto demais dos escritores latino-americanos, com destaque especial para Gabriel Garcia Marquez e Mario Vargas Llosa. “O Amor nos Tempos do Cólera” (entre outros igualmente maravilhosos), do primeiro, é um dos mais emocionantes livros que já li, e se liga muito estreitamente a um período de minha vida do qual sinto imensa saudade. Do segundo, amo em particular “Pantaleón e as Visitadoras”, “A Casa Verde” e “Tia Julia e o Escrevinhador”. Finalmente, não poderia esquecer a autora de livros tão emocionantes quanto “A Casa dos Espíritos”, “De Amor e de Sombra”, “Eva Luna” e “Paula”: Isabel Allende, em sua primeira fase (não gosto tanto de suas obras mais recentes). Quanto aos escritores de países mais longínquos que me vêm agora à memória, poderia citar Émile Zola, Eça de Queiroz, Kafka, Milan Kundera, José Saramago, Lewis Carroll e muitos outros por quem me apaixonei. Lista eclética, não é mesmo? E, como eu disse antes, totalmente sem preconceitos...

3. O que pensa dos best-sellers? Vendem muito bem, mas em geral não recebe prêmios literários, não são considerados Literatura. Existiria um modo de um livro se tornar best-seller e ser de alta qualidade literária? Poderia citar alguns exemplos?

R - Também não tenho nenhum preconceito contra best-sellers, a priori – isso seria uma redundância? Já li alguns de que gostei bastante, e muitos outros que detestei, me perguntando como é possível alguém gostar de tamanha porcaria. Como não especialista (sou amadora) na área de Literatura (tenho formação em Comunicação Social, sou apenas uma jornalista que escreve livros), posso somente falar de gosto, de opinião; não me sinto à vontade para fazer julgamentos técnicos. Entretanto, acho precipitado colocarmos todos os best-sellers no mesmo saco – o que cai na preferência do público nem sempre é bom, mas não é necessariamente ruim.
Um exemplo de best-seller que achei incrivelmente ruim: “A Cabana”, de William P. Young (chega a ser inacreditável que alguém tenha publicado uma “coisa” dessas). Dois exemplos de best-sellers de que gostei muito: toda a série Harry Potter e “O Filho Eterno”, de Cristóvão Tezza.

4. Amo seu livro “Jogo da Memória”, tanto o texto quanto o projeto gráfico. Ele foi finalista do Prêmio Brasília de Literatura agora em 2012, quando fiz parte da Comissão Julgadora. Pode me dizer qual é o seu livro preferido (de sua autoria) e o porquê?

R - Em primeiro lugar, gostaria de expressar minha surpresa: realmente não sabia que “Jogo da Memória” foi finalista do Prêmio Brasília de Literatura. Legal saber... Quanto à pergunta, ô perguntinha difícil de ser respondida! É mais ou menos como se alguém perguntasse de qual dos meus filhos eu gosto mais... Posso tentar escapar pela tangente, dizendo que recentemente tive uma experiência com a escrita que me trouxe muito prazer: escrever contos. E de terror. Com tecnologia no meio. Trata-se de meu mais recente livro, “Cibermistérios e Outros Horrores” (Rocco Jovens Leitores, 2011). Foi realmente muito divertido escrever esse livro. E com ele descobri que escrever contos é mais light. É que, quando estou escrevendo uma novela, fico o tempo todo envolvida, “tomada”, quase “mediunizada”. As ideias vêm com tanta força e tanta teimosia que não me deixam nem dormir. Um turbilhão interminável. E isso (embora seja muito bom!) cansa, sabe? Já quando escrevo um livro de contos posso fazer uns intervalos, entre um conto e outro, para relaxar da “tensão criativa”. O que me deixa mais zen... e eu adoro ficar zen!

Rio de Janeiro, 27/6/2012.


Perguntas  de Laura Bergallo para  Stella Maris Rezende 

1. Você é uma campeã em premiações e menções honrosas, tendo inclusive um livro (Último Dia de Brincar, de 1987) entre os Melhores Livros de Literatura Infantil do Século XX. Mas é também professora, cantora, atriz, artista plástica e dramaturga – é uma artista completa. Como faz para conciliar tantos talentos, e ainda ter essa produção literária tão vasta e tão amplamente aplaudida pela crítica?

R - Desde menina, sempre gostei de teatro, de ler, escrever, cantar, desenhar, pintar, dar aulas, contar histórias, encantar as pessoas com palavras e silêncios misteriosos. Já participei de festivais de música, compondo e cantando. Já fiz televisão, quando interpretei a Fada Estrelazul do Programa Carrossel na TV Brasília/Manchete, e a Tia Stella na TV Capital/Record, no final da década de 1970 e no início da de 1980. Ganhei prêmios como pintora e fiquei muito conhecida em Brasília, onde morei por mais de 30 anos, principalmente devido ao sucesso da Fada Estrelazul e dos vários prêmios literários em nível nacional. Penso que sou muito organizada, metódica, o que me faz ter tempo para fazer coisas diferentes e ao mesmo tempo interligadas pelo objetivo único de encantar e emocionar as pessoas. No início, era mais complicado, porque eu lecionava o dia inteiro e à noite, para pagar as despesas. Escrevia, lia, desenhava, atuava na televisão e no teatro, cuidava dos filhos e da casa. Quando me aposentei como professora, tudo se tornou mais fácil, principalmente agora, que meus filhos são independentes e eu moro sozinha em Botafogo, de frente para a enseada e o Morro da Urca. Deixei de lado as artes plásticas, mas sinto que elas continuam no meu trabalho, ao descrever o cenário de um romance ou a figura de uma personagem. Nas escolas, ao conversar sobre meus livros, a atriz reaparece, quando leio um trecho ou um capítulo. Canto um pedacinho de música que faça parte do texto e isso me traz de volta a cantora que sou e que não pôde seguir carreira, porque a Literatura sempre foi a minha maior paixão, o meu maior sonho, a minha vocação mais verdadeira e mais exigente.

2. Nascida em Minas Gerais, você viveu algum tempo em Brasília e hoje mora no Rio de Janeiro. De que forma essa vida de certo modo “itinerante” influencia (ou influenciou) sua obra e seus múltiplos talentos? Para escrever bem é preciso viver bem?

R - Como sou mineira de Dores do Indaiá, perto da Serra da Saudade, e a mineiridade é impregnada de inquietude, um tresmodo de ouvir e falar na hora certa, com a palavra que surpreenda pelo humor, siligristida de sonoridades, ardilosa e tranchã, e por me chamar Stella Maris que significa estrela-do-mar, sempre me senti atraída pelo mar. Quando estive no Rio pela primeira vez, aos quinze anos, disse para mim mesma: eu quero morar nesta cidade. O sonho demorou a ser realizado, mas como diz a protagonista do meu romance “A mocinha do Mercado Central”, Globo Livros, “sonhar é uma boa prática”. No final de 2006 comecei a me organizar para mudar para esta cidade que amo cada vez mais, embora a mineiridade permaneça em mim e seja a matéria-prima do meu trabalho de escritora. Gosto muito de viajar, conhecer outros lugares e outros costumes, tudo isso enriquece o meu olhar sobre a condição humana. Para escrever bem é preciso viver bem, mas viver bem não é só viajar e conhecer outras pessoas e outros lugares. Machado de Assis é o nosso maior escritor e pelo que sei quase não viajava, nunca saiu do Brasil. “Viver bem” é principalmente observar e ouvir muito, ler e reler livros, prestar atenção em tudo, em cada detalhe, porque qualquer coisa tem algo a nos dizer, mesmo que seja uma simples xícara com a asa quebrada.

3. Você desenvolve a oficina Letras Mágicas, com a qual viaja pelo Brasil e por outros países de língua portuguesa a convite de escolas, universidades, bibliotecas, centros culturais, congressos e feiras do livro. Nessas andanças, como tem sentido a receptividade do público, especialmente o infanto-juvenil, à leitura e às atividades literárias? Você acha que as novas tecnologias estão diminuindo (ou podem vir a diminuir) o interesse e o tempo disponível para os livros? O que sugere a esse respeito?

R - A oficina Letras Mágicas tem tido uma receptividade maravilhosa, porque trabalho com simplicidade e provoco nos participantes o encantamento pela palavra e pelo silêncio, a entrelinha, a pausa, o que não foi dito claramente, o que foi apenas sugerido. Penso que o ser humano nasceu para a sofisticação, para o mais bonito e o mais bem-feito. Só precisa ter acesso a boas oportunidades de fruição estética. As novas tecnologias podem conviver muito bem com o texto literário, com o livro em papel ou em tablet, não importa. É claro que o livro em papel ainda vai encantar por muito tempo, é um prazer especial e mais poético. Meu filho mais velho, que adora
cinema, praticamente só lê Literatura e Filosofia em tablets, mas isso não diminui o valor artístico da obra que ele lê. Em resumo, haverá um dia em que o suporte não será o mais importante e sim a permanência da busca pela beleza da arte. A Literatura fala por silêncios e cala por palavras. Enquanto isso existir, existirá boa qualidade literária, e haverá leitores apaixonados por essa magia delirante da linguagem. Todas as artes são importantes, mas creio que só o texto literário toca mais profundamente a alma humana, permeia a perplexidade da existência, estimula a imaginação, o sonho, a criatividade, a vontade de reinventar o mundo. Lutar por um Brasil Literário, que era o maior sonho do nosso querido e inesquecível Bartolomeu Campos de Queiros, pode ser o modo de os livros continuarem a encantar as futuras gerações. Uma das maneiras de se lutar por um Brasil Literário é o escritor não abrir mão da boa qualidade literária e ter garra e coragem de falar sobre a importância dessa arte, ainda que use outras mídias, não importa, porque ao se tornar leitor de um texto literário, a criança, o jovem ou o adulto refinou o gosto, aprendeu a exigir mais, está mais rico em perguntas, questionamentos, sonhos e imaginação.

4. Finalmente, gostaria de conhecer um pouco de seus planos para o futuro. Quais são seus próximos projetos, entre livros, vídeos e outras obras?

R - Fiz o roteiro para um curta-metragem de um dos meus livros e é bem provável que eu atue como atriz. Além disso, ainda tenho o sonho de gravar um CD com uma velha letra composta por mim e musicada por Didi Moreno e outras letras com as melodias compostas pelo meu filho mais novo, Renato de Rezende. Estou trabalhando em novos romances e contos. Lancei 2 livros em 2011, outros 2 em 2012 e possivelmente lançarei mais 2 em 2013. Mas são textos com que venho trabalhando há vários anos. Nenhum livro meu demorou menos que 1 ano para ser escrito. Meu processo de escrita é longo e demorado, e como escrevo dois ou três textos ao mesmo tempo, de vez em quando lanço 2 ou até 4 num ano só, como aconteceu em 1988, ao ganhar o Prêmio Bienal Nestlé. Quero continuar gravando vídeos para o Youtube, falando primeiramente de cada livro meu, do meu fã-clube (jovens de Nova Iguaçu que conheci no Salão do Livro da FNLIJ em 2009 e se tornaram meus fãs, me acompanham em todos os lançamentos e me ajudam na divulgação da minha obra), dos meus tempos de Fada Estrelazul e Tia Stella. Depois, quero falar de livros de outros autores que admiro, entrevistá-los, trocar ideias, continuar lutando por um Brasil Literário. O importante é dar asas à atriz que nunca deixei de ser. A atriz que ama a Literatura, as metáforas, as elipses, segredos e revelações da misteriosa condição humana.

sábado, 30 de junho de 2012

SP: Canto & Encanto da Poesia - História mal contada

HISTÓRIA MAL CONTADA

Quis fazer a quarta história
com rainhas bem malvadas,
princesinhas delicadas
e os nobres mais diversos.
Quis também fazê-la em versos.
bem rimada e na medida
pra ficar mais divertida
de contar para vocês.

No início, até foi fácil:
inventei que um certo conde
escondeu, sei lá eu onde,
o chapéu da princesinha,
a coroa da rainha
e a peruca da duquesa,
pra depois, por malvadeza,
por a culpa no marquês.

Foi então que o feitiço
virou contra o feiticeiro:
o tal conde, traiçoeiro,
do marquês roubou a rima
e depois, ainda por cima,
afirmou que duvidava
que eu achasse a tal palavra,
mesmo que levasse um mês.

Não gostei da brincadeira
mas fingi que nem dei bola...
revirei minha sacola,
espiei atrás do armário,
procurei no dicionário,
no chapéu, no meu chinelo
e por todo esse castelo,
com apuro e rapidez.

Vasculhei quarenta quartos,
cem caixotes, mil gavetas,
cento e trinta e três saletas
e um porão empoeirado.
Tudo em vão! Desanimado,
sem poder fingir mais nada,
eu gritei: “Que palhaçada
que o maldito conde fez!”

Eu já ia desistindo
quando tive uma surpresa:
descobri, perto da mesa,
um baú misterioso
que eu, muito curioso,
logo vi estar trancado,
mas um pontapé bem dado
fez a coisa abrir de vez.

Achei lá uma coroa,
um chapéu, uma peruca
e- que coisa mais maluca-
um gatinho siamês,
um cachorro pequinês,
uma taça de xerez,
um boné de lã xadrez
e o coitado do marquês.

O chapéu, dei pra princesa,
a peruca, pra duquesa,
 a coroa, pra rainha,
um ossinho pro cachorro,
uma anchova pro gatinho
e um golinho no xerez;
pus o boné na cabeça...
e dei adeus pro marquês!

Poesia de May Shuravel Berger,associada da regional paulista da AEILIJ
Livro: Na casa do curinga publicado pela Companhia das Letrinhas.

sexta-feira, 29 de junho de 2012

SP: Quintas (65)

FRAGMENTOS

Mastigando mágoas em vez de buscar um alimento mais nutriente para a alma. Assim se comportam alguns.
Mal sabem que talvez devesse ser melhor desbloquear a audição e passar a ouvir o que está além das asperezas.
Seria bom resistir aos insensatos confrontos do cotidiano, às intempéries inócuas, aos desacertos, e olhar no pasmo das coisas que realmente importam o desassombro da alegria que espreita e vela pelos nossos almejares.
É mais fácil se perder ou perder aquilo que jamais deveria escapar entre os dedos. Por isso é preciso firmeza e audácia.
O que já foi sonho, o que já foi ilusão. Nada disso deveria se desfazer nas nódoas diárias.
Voltar ao que sempre nos alegrou. Ao que nos trouxe a alegria particular. O que foi colhido nos momentos mais solitários, aquilo que jamais nos irá trair. Pois fez-se parte integrante do que somos e do que seremos sempre.
Tem algo que a multidão não leva, que a arrogância não consegue desbotar, que o tempo não conseguirá desfazer, destecer. Algo que não escolhemos, mas nos foi agraciado, nos foi ofertado na infância, e nos mais íntimos encontros com nossa existência.
Sou o que fui. Fui o que serei. O exato querer do recolhimento, das escolhas e da alegria. Só essa alegria como vela votiva, só essa alegria me persegue, me protege.
Anos foram necessários para que eu compreendesse que jamais estive na multidão.

Marciano Vasques

terça-feira, 26 de junho de 2012

PR: Reunião de trabalho

Profissionais criativos e comprometidos com a qualidade da literatura dirigida aos jovens leitores e definindo metas em comum, visando conquistas profissionais. 

Mari Inês Piekas, Célia Cris Silva, Alexandra Barcellos, Marilza Conceição, Iara Beatriz Moreira, Alexandre Barvik e Ingrid Osternack.
Esteve presente também a escritora Priscila Prado, que não saiu nesta foto.

Postado há 26th June 2012 por Marilza Conceição
Localização: Biblioteca Pública Do Paraná, Curitiba.

segunda-feira, 25 de junho de 2012

SP: Mensagem - Eu, a janela e a chuva

Eu, a janela e a chuva 

Finalmente o dia amanheceu nublado, preguiçosamente cinza. Coloquei as cachorras para fora, antes que a grama molhada as impedisse da voltinha matinal. Alimentei os gatos e fui à sacada ver do alto o que estava acontecendo na praça do outro lado da rua. Os marrecos gritavam uns com os outros desesperadamente: “Corram, corram, a chuva vai chegar logo, precisamos encontrar um abrigo seco e seguro”. E, em segundos, desapareceram pelos túneis verdes de arbustos empoeirados, que estalavam ansiosos.

Abaixo, no meu jardim, contemplei mais uma vez – como tenho feito há dias – o pássaro bicudo e alaranjado que está florescendo: a linda estrelícia que, vagarosamente, desperta em seu ninho de folhas verde-azuladas. Quando as primeiras gotas caíram de uma nuvem faceira, que não conseguiu esperar pelas amigas, eu vi a estrelícia abrir o bico e saborear o puro líquido do regador celestial. Acho que Ele nos presenteou com flores para sempre lembrarmos que temos alma, que existe muito mais importância nas Suas coisas do que nas que criamos.

Entro no meu quarto, e por que não, como se adolescente fosse, volto a deitar-me, mas antes abro a janela e convido a paisagem a invadir meu dia como se fosse um quadro moldurado em madeira. Vejo a palmeira comprida por onde escorre a água da chuva, agora muito mais forte, e escuto a música torrencial que acusticamente me isola do mundo, transformando as paredes da casa em braços de mãe que me protegem.

Eu amo a chuva. Quando chove, os vizinhos param de gritar, os cachorros não latem, telefones não tocam e os jardineiros desligam os cortadores de grama. Pausa. Aproveito o momento de solidão para esquecer-me dos afazeres e das preocupações. Nada mais existe além de mim, da janela e da chuva. A água, que purifica e acalma, tem esse poder de tirar todas as minhas dores. O sopro do vento conduz as folhas que marcham pela rua como numa manhã de sete de setembro. Com suas mãos, o vento lava os pés do mundo, em total humildade. O sol hoje está descansando no colo de outros povos, que o veneram depois de muitas águas.

Aqui, o ar úmido entra em nosso corpo, levando uma sensação de bem-estar aos pulmões tão cansados dessa seca recente. Água. Bendita água!

Aos poucos, a chuva cessa, e a paisagem refrescada continua a sorrir. Escuto, agora, não mais a água escorrendo pelos muros invisíveis do meu mundo, mas carros que passam vez ou outra, um vizinho caminhando com o netinho que gargalha ao pular as poças no meio-fio e os pássaros a cantar. Um canto de celebração. Eles também são gratos por esse dia molhado, um oásis no meio da semana seca.

Simone Pedersen


Simone é escritora associada da regional paulista da AEILIJ

sábado, 23 de junho de 2012

SP: Página do Rospo (6)

REMOVER SIM, REMOER NÃO!


Ao encontrar um amigo, Rospo observa seu semblante cabisbaixo e para romper a mudez arrisca um diálogo.
—O que está acontecendo, amigo?
—Tudo anda difícil. Não consigo nem pensar direito. São tantas as dificuldades...
—Sei, está remoendo.
—E deveria fazer outra coisa?
—Sim, tem sapo que neste mesmo instante está removendo.
—Remoendo, removendo. Aprecia brincar com as palavras, não é, meu amigo?
—Remover é mover novamente, mas também é um remo que movimenta o olhar. Remover pode ser remar a visão. Remover pode ser desentulhar a mente. 
—Lembra do que me disse em nosso último encontro?
—Perfeitamente. Nos despedimos sob José Ortega y Gasset...
—"Eu sou eu e minhas circunstâncias", vive a repetir isso, Rospo.
—Considero interessante. Mas compreendo também que a serenidade socrática nem sempre é possível. De qualquer forma, quero que saiba que entre se pôr a remoer e a remover, melhor sempre optar pela segunda.
—Falar sempre é mais fácil.
—Nem sempre. Às vezes, falar é o mais difícil.
—Rospo, passei a vida inteira ornando o meu ser, e agora, estou numa indecisão tremenda. Todo desesperado.
—Num certo momento, de nada adianta emplumar-se a alma, quer dizer, de nada adiantam solenidades. O que importa para o ser são os cuidados. Se você descuidou-se de si, não viverá o apogeu da alegria. 
—Rospo, seja mais claro. Excesso de leitura deu nisso?
—Ao contrário. A leitura torna o ser mais claro, mais objetivo, mais nítido...
—E por qual motivo então do lado de dentro do muro tantos se tornam cada vez mais labirínticos, mais complicados, com o pensamento mais rebuscado, mais enigmático? Seria excesso de prevenção? Seria uma espécie de égide? Um escudo usado para se preservar da "ganância" popular em se adentrar no mundo da Filosofia?
—Meu amigo, você está de bem com a vida, só não se deu conta. O que significa que está na hora de remover os entulhos que tanto o incomodam.
—Sabe, Rospo, talvez eu necessite do amparo da solidariedade dos amigos.
—Será que esse amparo, no seu caso, não seria por acaso, um sentimento gerador de pena comunitária? Às vezes a tristeza é tão atraente! Frequentemente o fracasso é regozijo da alma alheia. Deve ter reparado o quanto é difícil para a maioria aplaudir o sucesso de alguém próximo? Se você se mostrar remoído, certamente despertará paixões improdutivas...
—É muito para a minha cabeça, Rospo. Deixe-me aqui remoendo. Isso me causa um certo conforto.
—Pois então que continue a viver confortavelmente. Cá eu tentei removê-lo, mas parece que a argumentação está encontrando bloqueios sedimentados. Tchau, meu querido.

No caminho, Rospo encontra a velha amiga.
—Sabapela!
—Rospo! Agora meu coração sabadoficou.
—É?
—Não está vendo? Sabadofiquei-me. Veja como estou alegre.
—Para onde vai, amiga?
—Vou à padaria Rubi, comprar o pão nosso...
—Sorvete?
—Viva! O sábado começou! Venha comigo.
—Como estão as dificuldades, querida?
—Clamando para serem removidas, meu amigo.
—E como se faz isso, minha bela?
—Enfrentando-as;
—Ás vezes as dificuldades são tão poderosas e imensas que parecem até deusas.
—E daí? Sou uma titânide.
—Yupiiii!


MV

RS: Prêmio AGES - Convite


quinta-feira, 21 de junho de 2012

SP: Quintas (64)

UM CERTO COELHO ENTRE NÓS


Muitos personagens povoam as mentes infantis. Geralmente derivados das Histórias em Quadrinhos e popularizados nos vespertinos da televisão.
Uma boa parte não acrescenta nada à criança. Só perseguições, pancadarias, espertezas, safadezas, bobagens e coisas sem sentido e muitas vezes sem lógica. É pássaro levado que está sempre brigando e levando a melhor, é gato perseguindo rato. Enfim. E tem coelho que também nada diz.
Entretanto, hoje resolvi falar de um coelho especial. Visto que no espaço lúdico da criança o coelho triunfou, por causa de sua graciosidade, e pela sua fertilidade até se tornou um símbolo da Páscoa, para glória e alegria do comércio de chocolate.
Bem disse a Clarice: toda criança deveria pelo menos uma vez na vida ter um coelho. Eu conheci, tu conheceste, um em nossa infância. E não dá para falar dele sem falar da sua dona, ou seja, da sua criadora. Encanto de vida.
Algumas vidas realmente me enfeitiçam. Espinosa, e ela, Beatrix Potter, a criadora de Peter Rabbit. Genial. Uma doçura. E viveu numa época difícil para a mulher. Podemos vasculhar e pesquisar um dia inteiro na busca de encontrar uma época que tenha sido fácil para a mulher, mas ela nasceu no século XIX e viveu uma parte do século XX. Morreu em 1943.
Época em que mulher não podia trabalhar, e menos ainda ser autora de Literatura Infantil. Ser independente? Nem pensar! Mas ela foi, o seu espírito era independente, talvez por ter convivido em toda a sua vida com os animaizinhos, entre os quais, os coelhos, e ter sido uma grande e incansável observadora e, um detalhe, atenciosa para com os pequenos seres que vivem ao redor da infância. Ela era diferente e destoava de sua época. Amava os animais e até conversava com eles. Por isso seus personagens doces e sensíveis conquistaram o coração da criança em todos os lugares. Criança é universal, pertence a todos os lugares. Escritores que perceberam isso, escreveram obras inesquecíveis.
Peter Rabbit. De vez em quando nós o vemos em sacolas. Mas ele foi o personagem travesso e encantador da obra mais famosa de Beatrix Potter.


Numa época preconceituosa contra a mulher, a autora e ilustradora procurou setenta editoras para tentar publicar o seu primeiro livro. Todas recusaram, pois era difícil naqueles dias para um principiante, um autor desconhecido publicar um livro. As editoras recusavam, e em se tratando de mulher...
Em 1902 seu coelho Peter foi publicado. A septuagésima editora aprovou.
Começou a ganhar dinheiro com a venda de seus livros e se tornou próspera, pois bem dizem, coelho dá sorte, por isso que uma certa ignorância prevaleceu durante muito tempo por aí, de se cortar a pata do coelho e, talismã!
Vamos só nas coisas amenas.
Contrariando o espírito dominante da época, ela não queria se casar, mas uma mulher era feita para casar, e era inaceitável para a família uma componente de feminino ganhando dinheiro com seus próprios livros. Que barra! A inglesa Beatrix sofreu, mas jamais desistiu de seu ideal. E emocionou os corações dos pequenos com seu extraordinário coelho.
Dizem que J.K. Rowling deu o sobrenome do seu bruxo porque ela adorava a autora de Peter Rabbit, mas por enquanto, é só boato.
Não só os seus coelhos, mas todos os seus personagens animais têm vida, e bota vida, menino! E têm muita alma.
Ela chocou a sociedade e depois a encantou com seu coelho. Nada mais justo que seja lembrada. E viva Peter Rabbit!
Quer uma vida de beleza? De luta e determinação? Siga essa mulher, a maior escritora de literatura infantil do mundo e de todos os tempos. E abrace o seu coelho.


Marciano Vasques

segunda-feira, 18 de junho de 2012

RS: Encontro de Escritores na 28ª Feira do Livro de Canoas



Postado por Jacira Fagundes

NE: Fliporto confirma nomes para 2012



Na 4a feira, dia 13/06, em coletiva à imprensa, a equipe da Fliporto, na qual tomo parte como Curador de Literatura Infantil e Juvenil, sendo um dos responsáveis pela programação dos braços Fliporto Criança e Nova Geração, confirmou  alguns nomes para o evento. Nestes segmentos, destacamos a vinda da escritora ANA MARIA MACHADO, atual presidente da Academia Brasileira de Letras (ABL) e ganhadora, em 2000, do Prêmio Hans Christian Andersen, considerado o Prêmio Nobel da Literatura Infantil.

Além da escritora Ana Maria Machado, também já estão confirmados os escritores Alexandre de Castro Gomes, Cristina Villaça, Flávia Côrtes, Léo Cunha, Luiz Raul Machado e Paula Pimenta, bem como os ilustradores Cris Alhadeff e Laerte Silvino, dentre outros. 

A Fliporto 2012, que terá lugar de 15 a 18 de novembro na bela e acolhedora cidade de Olinda, promete ser uma grande festa, recheada de literatura infantil e juvenil da melhor qualidade. Aguardem mais novidades sobre as ações continuadas para este público, bem como a confirmação de novos nomes.  Sejam mais que bem vindos.